sábado, 9 de maio de 2015

A MELHOR E A PIOR FRASE DA BÍBLIA


Nunca vimos uma crucificação. Não sabemos como eram as crucificações. Tanto que, a cada filme ou série que assistimos, os roteiristas e diretores crucificam os personagens de uma forma diferente. Confiram, por exemplo, o clássico “Ben-Hur”, o filme “Spartacus” de 2004 (não me refiro ao clássico com Kirk Douglas que mostra pessoas crucificadas mas não sugere como se fazia, o diretor lavou as mãos) e o seriado “Spartacus”, em cujo episódio final o personagem Gannicus, interpretado pelo belo Dustin Clare, morre crucificado após comandar uma tropa de rebeldes que retarda o avanço do exército romano para que velhos, mulheres, doentes e crianças consigam fugir pelas montanhas guiados pelo casal de guerreiros gays Agron e Nasir.
As crucificações eram tão comuns nos tempos da Bíblia que os evangelistas não se deram ao trabalho de explicar como elas eram feitas: todo mundo sabia como era, todo mundo já tinha visto e ninguém jamais imaginou que um dia isso deixaria de acontecer. Se eles tivessem o dom de prever o futuro, teriam facilitado as coisas para os produtores de Hollywood e explicado direitinho como se fazia.
Quem gasta mais papel narrando o que teria acontecido no Calvário é João, o apóstolo amado. Telegráfico como os demais na parte técnica (“Lá, eles o crucificaram com outros dois” – João 19: 18, tradução da CNBB), demora-se a contar como agiam o povo, os soldados e os condenados.
Duas coisas sempre me chamaram a atenção. Jesus diz: “Tenho sede!” Um teólogo ou um filósofo (mesmo ateu) poderia escrever um livro inteiro sobre essa frase. Todos os crucificados sentiam sede, pois perdiam sangue e suor naquela tortura. Mas apenas Jesus pensa em pedir água àqueles soldados que o despiram, espancaram e pregaram na cruz, somente ele acredita que pode restar alguma bondade naqueles soldados e que eles lhe poupariam ao menos o tormento da sede. Essa frase antecipa em quase dois mil anos a frase de Anne Frank, criança símbolo do Holocausto: “Apesar de tudo, ainda creio na bondade dos corações humanos”. “Tenho sede” é a melhor frase da Bíblia.
João se diz testemunha ocular dos acontecimentos. Lucas declara ter escrito o que ouviu de outras pessoas. Ele diz que um dos condenados insultava Jesus e o desafiava a libertá-los da cruz. Causa-me admiração que um homem, sofrendo a dor de ter pregos perfurando sua carne e seus ossos e a vergonha de ser exposto nu diante de uma multidão ainda encontre disposição para zombar de outro. O que mais pensar que o principal motivo de o imperador Constantino, após sua conversão, proibir as crucificações não teria sido o alegado desejo de negar a criminosos a “honra” de morrerem como o Salvador, mas sim o costumeiro mal humor dos condenados que contrariavam essa página. Ou será que aquela mistura de vinho com mirra, que Marcos 15;23 e Mateus 27: 34 dizem ter sido oferecida aos condenados era um entorpecente tão eficaz assim? Nunca saberemos, pois as leis não nos permitem crucificar um condenado para testar a eficácia de tal droga no alívio das dores. A bioética impede que o método científico possa refutar ou aprovar o relato bíblico.
E é no relato de Lucas que encontra-se a pior frase da Bíblia. O outro condenado repreende o debochado e lhe diz: “Para nós, é justo sofrermos, pois estamos recebendo o que merecemos” (Lucas 23: 41).
Várias pesquisas científicas foram feitas para investigar como os romanos crucificavam. Em que partes dos braços eles metiam os pregos? Experiências foram feitas com cadáveres para ver como um corpo poderia ser pregado na cruz sem que se soltasse. (Pregos metidos nas palmas das mãos, como na arte religiosa, não seriam eficazes: o peso do corpo faria com que as mãos se rasgassem e os corpos caíssem, e talvez caíssem com as vítimas ainda vivas. Então o mais eficiente seria metê-los nos pulsos.)
Há um documentário do History Channel sobre isso, ao qual assisti no Youtube. Médicos valeram-se de voluntários que se deixaram amarrar a cruzes para pesquisarem os efeitos da crucificação sobre o coração.
Mas por que não foram esses médicos a um lugar onde há pena de morte e não pediram que as autoridades lhes entregassem alguns condenados para que mais fielmente testassem suas hipóteses? Por uma única razão: PORQUE AS SOCIEDADES EVOLUÍRAM E AS TORTURAS NÃO SÃO MAIS ACEITÁVEIS EM NENHUMA LEGISLAÇÃO QUE SE QUEIRA CIVILIZADA. Não importa o que um criminoso tenha feito. Ele não pode ser crucificado.
Sim, eu acho que realmente houve um rabino em Jerusalém que incomodou as autoridades religiosas e políticas com seus ensinamentos e por isso foi crucificado. Há chances de que esse diálogo realmente tenha ocorrido.
E, na mentalidade da época, os criminosos não tinham dignidade. Podia-se fazer tudo com eles. Não apenas crucificações, mas apedrejamentos, castrações, fogueiras, toda sorte de tormento.
Aqui no Brasil, país em que não há investimento em Educação, em que as empresas de comunicação não cumprem os compromissos éticos que a Constituição Federal impõe nos artigos 220 e 221 da Constituição Federal às concessionárias de rádio e TV, a população é catequizada por um jornalismo desonesto que repete diariamente que a Declaração dos Direitos Humanos apenas beneficia bandidos. Não! A Declaração dos Direitos Humanos é um conjunto de exigências feitas aos países membros da ONU para que TODOS OS SERES HUMANOS tenham uma vida digna: o direito à educação, à informação, à saúde, à crença ou descrença, à participação política, à integridade física etc. É graças à Declaração dos Direitos Humanos, por exemplo, que ninguém pode forçar você a casar com quem você não queira, embora os líderes religiosos que primam pela desonestidade amedrontem as pessoas com o fantasma de uma ditadura gay.
Essa frase do Evangelho de Lucas, repetida há quase dois mil anos, que repete o senso comum que nega a dignidade humana a uma pessoa com base em algum ato errado que ela tenha cometido, esse ensinamento torpe torna possível que a maioria da população, mal informada e manipulada, ache correto que ainda hoje alguém seja torturado.
Lembro aqui o caso da travesti Verônica. Ela realmente agrediu a senhora de 70 anos? Eu não sou advogado dela. Não posso afirmar que ela seja inocente. Mas é um princípio que herdamos do Direito Romano que todos são inocentes até prova em contrário. (Sim, Pilatos não condenou Jesus antes de perguntar se ele se assumia rei dos judeus, o que era um crime contra Roma. Se ele tivesse dito que não, a obrigação de Pilatos seria chamar a tropa de choque para dispersar a plebe que exigia a crucificação de Jesus e escoltá-lo até um lugar seguro.) Que Verônica seja devidamente processada e julgada. E, se condenada, cumpra a pena estabelecida pela lei. Lei que, conforme a Declaração dos Direitos Humanos, proíbe a tortura. Seja qual for o caso.

Postado por

76° Hangout d'ARCA - Evolução experimental e as falácias negacionistas - com Fabiano Menegídio


Então galera, para quem não conseguiu participar e nem assistir ao vivo, segue o vídeo do nosso septuagésimo sexto HANGOUT d'ARCA realizado no último sábado dia 02/05/2015, onde abordamos, juntamente com o mestrando em Biotecnologia pela Universidade de Mogi das Cruzes, Fabiano Menegidio, o tema "Evolução experimental e as falácias negacionistas". Ele também atua nas áreas de Genômica Funcional e Estrutural com Xylella fastidiosa, Paracoccidioides brasiliensis e Vitis vinifera, com ênfase em Bioinformática. Especialização em Metodologia de ensino de ciências da natureza e Filosofia. Graduado em Ciências Biológicas (Licenciatura Plena e Bacharelado) e Formação Específica em Gestão Ambiental. Atuação na divulgação acadêmica e no jornalismo cientifico, principalmente sobre a Teoria da Evolução, no blog Evolution Academy. Esse hangout está imperdível e cabe ressaltar que o pessoal participou ativamente pelo youtube com perguntas diversas. Você não pode perder. Não esqueça de se inscrever em nosso canal, curtir e compartilhar o vídeo afim de disseminar o conhecimento de qualidade e gratuito. Não perca.
.

Se inscreva em nosso canal no youtube: Canal d'ARCA para ficar por dentro dos nossos vídeos, visite também a nossa fanpage: https://www.facebook.com/arcateus ou nos siga no twitter: https://twitter.com/canaldarca e ainda temos um grupo de debates no facebook: https://www.facebook.com/groups/arcateus/

75° Hangout d'ARCA - A Homossexualidade e a bíblia - com Edson Custódio


Então galera, para quem não conseguiu participar e nem assistir ao vivo, segue o vídeo do nosso septuagésimo quinto HANGOUT d'ARCA realizado no sábado dia 25/04/2015, onde abordamos, juntamente com o vlogger Edson Custódio, do canal "Ateu ver", o tema "Homossexualidade e a bíblia". Ele também é professor, ator e coreógrafo. Esse hangout está imperdível e cabe ressaltar que o pessoal participou ativamente pelo youtube com perguntas diversas. Você não pode perder. Não esqueça de se inscrever em nosso canal, curtir e compartilhar o vídeo afim de disseminar o conhecimento de qualidade e gratuito. Não perca.


Se inscreva em nosso canal no youtube: Canal d'ARCA para ficar por dentro dos nossos vídeos, visite também a nossa fanpage: https://www.facebook.com/arcateus ou nos siga no twitter: https://twitter.com/canaldarca e ainda temos um grupo de debates no facebook: https://www.facebook.com/groups/arcateus/

EVOLUÇÃO PARA PRINCIPIANTES


Aula de Literatura. O Estado manda que eu fale aos adolescentes sobre autores realistas e que eu diga que Machado de Assis rezava pela cartilha do Realismo, nada mais falso -- Machado não cria em verdades absolutas e mostra homens perdidos buscando um sentido para as coisas. Mas disso eu falo depois.
Preciso falar a eles sobre o panorama histórico e filosófico da época em que esses autores viveram. Quem fazia a cabeça desses caras? Que livros estavam bombando? Dei umas pinceladas sobre Adam Smith, Darwin, Marx e Nietzsche.
Mas do "tio" Darwin eu falei assim: "Ele deu a volta ao mundo no navio Beagle, uma viagem que durou quatro anos, e esteve aqui em Itaboraí. Por isso que tem aquela placa em homenagem a ele na Praça Floriano Peixoto, em frente à igreja de São João Batista."
"O livro mais importante dele é "A Origem das Espécies'. Depois de andar pelo mundo todo estudando plantas e bichos, ele escreveu esse livro demonstrando as ideias que teve a partir daquilo que viu: explicando como as espécies mudam com o passar do tempo.
"Antes de vir para o Brasil, ele passou pela África e viu os avestruzes. Chegando ao Rio Grande do Sul, ele viu as emas e achou muito parecidas com os avestruzes. Por que em dois continentes havia aves tão parecidas? Darwin pediu para os gaúchos um cadáver de ema para estudar a anatomia do bicho e os gaúchos disseram que era justamente uma ema que estavam comendo. E Darwin saiu catando os ossos do churrasco." (Risadas.)
"Depois ele foi para a Argentina. Lá, testemunhou um terremoto e viu que uma parte do terreno ficou mais elevada do que era antes. Então ele aceitou a ideia de Charles Lyell de que catástrofes naturais poderiam mudar o relevo do planeta no decorrer dos séculos.
Se a gente olhar o mapa, a gente vê que o Brasil e a África se encaixam como peças de um quebra-cabeças. Esses dois territórios se separaram com o passar do tempo e a população de certas aves pré-históricas ficaram divididas entre os dois continentes. E assim elas também mudaram com o decorrer do tempo, evoluindo umas para avestruzes e outras para emas."
E nenhum fundamentalista se escandalizou com isso, com essas noções básicas de evolução. Esse pessoal só se magoa quando a gente diz que a espécie humana evoluiu de uma espécie extinta de símios, que nós e os chimpanzés temos um ancestral em comum. É mesmo uma "ferida narcísica", como diz Frei Betto.

Postado por

sábado, 2 de maio de 2015

A CERIMÔNIA DO ADEUS


"Cerimônia do Adeus" é o nome do livro em que Simone de Beauvoir conta os últimos dez anos de vida de Jean-Paul Sartre, com quem vivera uma relação amorosa que durou décadas.
A melhor página do livro é a primeira, quando Simone dirige-se a Sartre: "Este é o primeiro livro que escrevo que você não lê por cima do meu ombro." O prefácio começa com uma carta ao amado Sartre, e, logo depois, ela, ateia, põe as cartas na mesa: dirigir-se a Sartre era apenas um floreio literário, pois Sartre não podia mais ouvi-la. Mesmo que os ossos dela se juntassem às cinzas dele, ambos jamais estariam juntos de novo.

Camus disse certa vez que a única coisa no universo que faz sentido é o homem, pois é o único ser que exige um sentido para as coisas. Conhecemos a realidade mediante nossos sentidos e mediante símbolos (a linguagem, por exemplo: o primeiro passo para entender algo é nomeá-lo).

Esta semana perdi um amigo e isso me deixou emocionalmente transtornado. Durante a internação dele, que durou mais de um mês, repetidas vezes pedi a algumas pessoas que fôssemos visitá-lo. Que me chamassem quando fossem visitá-lo no hospital, pois não conheço bem o Rio de Janeiro. Ninguém me chamou e não consegui visitá-lo. Como também não consegui ir ao velório e ao sepultamento.

A minha ficha ainda não caiu. Ainda não compreendi plenamente a sua perda. Diante disso, pedi a um amigo que é padre e sabe de meu ateísmo para celebrar uma missa de sétimo dia em sua memória. Não que eu me preocupe com ele, pois não creio em vida após a morte. Mas para que, durante a cerimônia, eu possa chorar ao lado de nossos amigos em comum e despedir-me dele simbolicamente.

E aí lembro-me de algo que li em algum lugar. Que, quando cientistas encontram restos fossilizados de homens das cavernas, buscam nas proximidades da ossada, restos de algum ritual, para certificar-se da sua condição de humanos, da evolução de cérebros que já buscavam sentidos para o mundo.

Postado por

quinta-feira, 30 de abril de 2015

JESUS CRISTO, CAMPEÃO DOS ALCOÓLICOS ANÔNIMOS


Os Alcoólicos Anônimos dizem para seus integrantes evitarem a primeira dose e contam cada dia que ficam sem beber. Eles dizem coisas do tipo: Estou sem beber há 4 anos, 3 meses e 20 dias.
Pensando assim, para quem crê piamente nos Evangelhos, Jesus é campeão dos campeões, pois está há quase dois mil anos sem chegar perto do vinho.
Evangelho de Hoje:
Mateus 26: 29:
"E vos afirmo que, de agora em diante, não mais tomarei deste fruto da videira até aquele dia em que beberei o novo vinho, convosco, no Reino de meu Pai”.

Postado por

terça-feira, 28 de abril de 2015

CIÊNCIA SÓ QUANDO INTERESSA


Acabo de ler uma reportagem, publicada por O GLOBO, neste 21 de abril de 2015, sobre a transexual Maitê Schneider. Fico pasmo com os comentários dos religiosos na versão digital do jornal.

Um diz que o dinheiro público não deveria ser gasto com essas cirurgias efetuadas pelo SUS em detrimento de outros gastos com Saúde. Bem, se faltam remédios ou material hospitalar em Pindamonhangaba ou em Juazeiro do Norte, a culpa não cabe aos transexuais. Mas quem argumenta assim não abre a boca para dizer que se gasta mais tratando doenças do que prevenindo doenças -- quando sabemos que cada real investido em saneamento básico implica na economia de quatro reais em tratamentos médicos. E eu lembro sempre a máxima de Drauzio Varella, de que a medicina existe para aliviar o sofrimento. E é isso que as cirurgias de redesignação sexual fazem: diminuem o sofrimento de quem não se reconhece no corpo em que nasceu.

Outro diz que ela nunca será mulher porque tem o cromossomo Y, o invés dos cromossomos XX. Eu pergunto a esses religiosos, que sustentam a veracidade da fábula da cobre falante: vocês sabem definir, explicar, o que é um cromossomo? Já viram um cromossomo? Cromossomo, para eles, é apenas uma palavra usada para negar aos transexuais o direito de decidirem sobre o próprio corpo.

Essa desonestidade intelectual me enoja.

Postado por

segunda-feira, 27 de abril de 2015

TRANSEXUALIDADE


A cartunista Laerte Coutinho, que pensou em denominar-se Sônia, mas preferiu manter o nome que sempre foi sua marca, desde quando se identificava como homem, disse numa entrevista ao programa "Talk-Show do Rafucko", disponível no Youtube, que "preconceito não é a opinião antecipada; preconceito é a opinião que não muda". Perfeito! Quem menospreza negros, mulheres, judeus, homossexuais etc. manterá suas opiniões grotescas mesmo que vejam representantes das categorias que despreza vencerem o Nobel em várias categorias.

Costumo dizer que tudo evolui, não só a natureza como a cultura. Daí que tenhamos caminhado do Latim para o Português de hoje, que não será o mesmo dentro em pouco. Também as religiões evoluem. Exemplos: A missa católica deixou de ser em Latim para ser em línguas vernáculas, embora a Igreja Católica não admita que mulheres cheguem ao sacerdócio. A Igreja Anglicana já tem mulheres como sacerdotisas e até uma bispa. Várias igrejas reconhecem o amor entre pessoas do mesmo sexo.
Um amigo que é pastor tem a seguinte postura: casamento não é sacramento e não deve se dar dentro da Igreja. E quanto à homossexualidade, quando alguém toca no assunto, ele recita de cor um rosário de proibições bíblicas que ninguém leva a sério: não consumir laticínios e carne vermelha na mesma refeição; não comer crustáceos; não usar roupas feitas com dois tipos de fios; não trabalhar no sábado; não raspar a barba etc. Então por que levar a sério justamente a proibição de amar alguém do mesmo sexo?
Li recentemente um texto sobre uma judia trans. Ela sentia-se mulher e fez a cirurgia de redesignação sexual, retirando os órgãos masculinos. Segundo ela, a doutrina judaica diz que todos nós nascemos com um defeito e por isso mesmo nascemos: para aperfeiçoar-nos. Ao adaptar-se à sua identidade feminina, ela estaria se aprimorando.

Fico imaginando como as diversas religiões se comportarão diante dos avanços nos direitos civis dos transexuais. Que discursos adotarão as que não forem fundamentalistas para integrá-los a seus rebanhos? Pois admitir que alguém que tem órgãos masculinos sinta-se mulher, ou que alguém com órgãos femininos sinta-se homem é admitir que Deus errou ao criar aquela pessoa com aquele corpo, ou estou errado?

Postado por

domingo, 26 de abril de 2015

Respostas a alguns questionamentos criacionistas - por Fabiano Menegídio


No último dia 07 de abril, o grupo AAUSA: Ateus e Agnósticos da UFRRJ - Sociedade Ateísta organizou o 1° Encontro Nacional de Ateus e Agnósticos Universitários, onde alguns palestrantes discorreram sobre temas relacionados a Evolução x Criacionismo. Durante todo o dia, das 09:00 às 21:00hs, abordamos o tema, inclusive, abrindo espaço para quem tivesse o interesse de participar, interagindo, questionando e agregando conhecimento ao evento.

As palestras e os debates que foram realizados durante o evento podem ser visualizadas nesta PLAYLIST
Eis que após o evento, os organizadores do evento recebem um e-mail de um graduado na mesma universidade com alguns questionamentos sobre o evento que estão expostos abaixo, apenas protegendo o nome do emissário, afim de evitar-lhe possíveis constrangimentos e com as devidas respostas elaboradas pelo pelo mestrando em Biotecnologia pela Universidade de Mogi das Cruzes, Fabiano Menegídio. Atuando nas áreas de Genômica Funcional, Genômica Estrutural e Transcriptoma com ênfase em Bioinformática. Especialização em Metodologia de Ensino de Ciências da Natureza e Especialização em Filosofia. Bacharel e Licenciado em Ciências Biológicas com Formação Específica em Gestão Ambiental. Atuação na divulgação acadêmica e no jornalismo cientifico, principalmente sobre a Teoria da Evolução, no blog Evolution Academy e no projeto Universo Racionalista.



Ateus e Agnósticos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - Sociedade Ateísta

A propósito do Encontro Nacional de Ateus e Agnósticos Universitários promovido por vossa associação, eu, lamentando não ter podido estar presente, quero apresentar algumas considerações sobre a controvérsia Evolução x Criacionismo, tema da vossa reunião deste ano.

1° - A Teoria da Evolução de Charles Darwin é aquilo que o próprio nome indica: Uma teoria. A ciência, como sabem, é um cemitério de teorias. Hoje uma teoria pode nos parecer razoável, mas amanhã perde totalmente a confiabilidade e é posta de lado. Isto pode vir a acontecer à Teoria da Evolução, como aconteceu, por exemplo, com as teses de Lamarq ou as teses iluministas segundo a qual um monte de lixo a um canto gera a formação de ratos, sem necessidade de intervenção divina...Esta tese lá pelos idos do século XVIII chegou a ser o "must" em termos de dialética materialista."

Prezado,

Agradecemos o e-mail encaminhado com relação ao nosso evento e lamentamos que não tenha comparecido para tratarmos dos pontos levantados por você durante o mesmo.

Sobre suas considerações, devo apresentar algumas objeções fundamentadas em artigos científicos publicados em revistas peer-reviewed e livros técnicos de grande circulação no meio acadêmico.

RESPOSTA DE FABIANO MENEGÍDIO:

Sobre sua primeira frase, devo concordar com você. A Teoria da Evolução (desde o Darwinismo proposto por Charles Darwin em seu livro Origem das Espécie, passando pela Síntese Evolutiva que contou com os maiores geneticistas de população do início da metade do século XX e o acréscimo das ideias de Mendel e as novas descobertas científicas que permitiram uma proposta para uma Nova Síntese Estendida) realmente é uma TEORIA.

O grande problema posterior é que você comete uma falha epistemológica básica com relação a uma área de extrema importância para a ciência: a Filosofia da Ciência. O conceito de teoria na Filosofia da Ciência difere extremamente do apresentado pelo senso comum, que utiliza a palavra com a conotação de especulação, algo duvidoso, incerto. Uma teoria científica é um conjunto de explicações sobre um certo tipo de fenômeno, ou um grupo de fenômenos semelhantes. Um outro ponto que deve ficar claro é que ela é uma síntese aceita de um vasto campo de conhecimento, consistindo-se de hipóteses necessariamente falseáveis que foram e serão permanentemente e devidamente confrontadas entre si e com os fatos científicos, fatos estes que integram um conjunto de evidências que, juntamente com as hipóteses, alicerçam o conceito de teoria científica. Uma teoria cientifica reúne todos os fatos relevantes sobre algo, fornecendo uma explicação que se encaixa a todas as observações e pode ser usada para fazer previsões. Na ciência, a teoria científica é o objetivo final, a explicação. É o maior nível de comprovação dentro da ciência. Logo, quando você utiliza a palavra teoria de forma negativa, como no seu texto, demonstra um total desconhecimento de Filosofia da Ciência e de epistemologia.

Você também demonstra um desconhecimento sobre o conhecimento científico quando utiliza o caráter temporal de suas explicações como se fosse algo negativo. O conhecimento científico tem um caráter histórico e temporal justamente por ser constantemente e devidamente confrontado entre si e com os fatos científicos e pela necessidade inerente de falseamento. Logo, uma teoria ser confrontada com novas e acabar refutada ou sofrer mudanças é uma característica extremamente positiva e que demonstra a evolução do fazer científico. Essas características diferenciam o conhecimento científico dos conhecimentos filosóficos, de senso comum e religioso, esse último pautado em dogmas que não sofrem atualizações e se baseiam em um ponto fundamental e indiscutível das religiões.

Baseado no senso comum, muitas pessoas acreditam que quando uma teoria se torna bem estabelecida e atinge uma grande aceitação científica acaba se tornando uma lei cientifica, sendo essa mais uma concepção extremamente incorreta. Uma teoria nunca se torna uma lei. Leis científicas descrevem eventos repetitivos e observáveis, enquanto teorias explicam como esses eventos ocorrem. Se houvesse uma hierarquia na Filosofia da Ciência, as teorias seriam maiores do que as leis. Não há nada maior ou melhor do que uma teoria na Filosofia da Ciência.

As teses de Lamarck realmente foram confrontadas com novos dados empíricos e foram falseadas, graças principalmente aos experimentos de August Weismann. Mesmo com as bases da teoria lamarckista sendo confrontada, hoje temos conhecimento que muitas de suas hipóteses são aplicadas na área da Epigenética. Recomendo que leia detalhes sobre essa área e como as ideias de Lamarck voltaram ao meio científico. Como sugestão de leitura sobre o tema, deixo o livro Evolução Em Quatro Dimensões de Eva Jablonka. Abaixo temos 4619 artigos tratando do tema que acredito validar o ponto levantado acima:

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=epigenetics+review

Já a “tese iluminista” que você se refere possuí um nome: geração espontânea. Realmente essa hipótese foi defendida por diversos cientistas e filósofos no decorrer da história da ciência. Essa hipótese só foi desacreditada pela comunidade científica depois dos experimentos realizados por Pasteur e Tyndall que comprovaram em definitivo a impossibilidade de surgimento de seres vivos totalmente formados a partir da matéria inanimada num curto espaço de tempo e não que a vida extremamente primitiva não possa se formar a partir de moléculas cada vez mais complexas. Para não alongar essa resposta, recomendo o artigo abaixo que trata do tema e responde esse ponto levantado por você, chegando a se aprofundar no tema da Abiogênese e outros temas da origem da vida:

http://www.scielo.br/scielo.php...

Por último, recomendo fortemente que leia livros sobre Filosofia da Ciência, pois sua critica é pautada justamente em um desconhecimento básico do que é uma teoria científica, uma lei científica, hipóteses cientificas e fatos científicos. Além disso, você comete diversos erros relacionados a metodologia cientifica que comprometem uma crítica consistente.

Como sugestão de leitura, deixo dois livros dos principais filósofos da ciência que sustentam todas as afirmações realizadas acima:

Popper, Karl. (1996). A Lógica da Pesquisa Científica. SP. Ed. Cultrix.

Kuhn, Thomas. (1962). The Structure of Scientific Revolutions. University of Chicago Press. 2ª edição.

Além disso, sugiro o livro abaixo em português que explica o que realmente é ciências, como funciona sua metodologia e as diferenças dos tipos de conhecimento científico:

http://www.nelsonreyes.com.br/A.F.Chalmers_-_O_que_e...

"2° - A Teoria da Evolução continua sendo uma teoria, pois jamais se pôde observar uma determinada espécie evoluir para outra. A evolução das espécies não foi comprovada cientificamente. Mas, ao invés de ser considerada apenas uma teoria que os seus apoiantes procurariam provar cientificamente - coisa que ainda não conseguiram, repito -, passou a ser, isto sim, uma espécie de "credo" quase que religioso, a que é exigida fé absoluta, sem questionamentos, sob pena de excomunhão do mundo "dos vivos"."

RESPOSTA DE FABIANO MENEGÍDIO:

Como comentei na resposta anterior, podemos observar que sua crítica se baseia justamente em uma falta de conhecimento epistêmico, tendo em vista que você atribui que a Evolução Biológica é “apenas uma teoria” e apresenta como argumento o fato que ela “não pode ser testada”. Dois pontos importantes para classificar uma hipótese como teoria é ela ser: falseável e testável. Você classificando a Evolução como teoria já está afirmando que cumpre essas duas premissas essenciais. Essas informações podem ser confirmadas no livro que disponibilizei acima. Boa parte de sua segunda crítica está respondida na primeira e no livro fornecido, por isso vou me centrar apenas na questão da especiação.

Você afirma em sua crítica que especiação nunca foi vista. Essa afirmação torna-se extremamente engraçada, pois conforme sua assinatura, você é formado em zootecnia. TODOS os animais que você trabalha são frutos do processo de Seleção Artificial que é a aplicação da Seleção Natural de forma coordenada. Bois, porcos, cachorros, galinhas, milho, banana são grandes exemplos de processos de especiação através de seleção artificial. Só essas afirmações já refutariam a ideia de que “jamais se pôde observar uma determinada espécie evoluir para outra”. Quando o primeiro hominídeo resolveu desenvolver e aprimorar as potencialidades dos animais domésticos e domesticáveis, com a finalidade de incrementar sua produção como fonte alimentar e outras finalidades (por sinal, a descrição de sua profissão) e iniciou um processo de reprodução diferencial, geração de variação e seleção da prole através de características fenotípicas desejáveis, estava promovendo um processo evolutivo que muitas vezes levou a uma especiação.

Apenas falando sobre o gado doméstico, existem inúmeros trabalhos que demonstram o processo de especiação do auroque para ele. Segue abaixo artigo que trata do tema. Ele apresenta uma literatura suplementar em suas referências bibliográficas e uma simples busca em um repositório de artigos apresentará muitos outros:

http://dx.doi.org/10.1371%2Fjournal.pone.0009255

Quando falamos de especiação em ambiente natural, temos mais evidências ainda sobre o processo. Essa crítica é extremamente simplista que grande parte dos criacionistas nem a utilizam, aceitando pelo menos o surgimento de novas espécies para adequar a sua tentativa de explicação denominada Baraminologia.

Abaixo artigos tratando do surgimento de novas espécies:

http://www.talkorigins.org/indexcc/CB/CB910.html

Abaixo uma revista científica que trata apenas da descrição de novas espécies:

http://mapress.com/zootaxa/collections/nova/index.html

Mais uma vez você demonstra um total desconhecimento filosófico, histórico e biológico quando faz suas afirmações. Negar o surgimento de novas espécies é um dos sinais mais clássicos de fundamentalismo, tendo em vista que podemos ver espécies surgindo em curtos espaços de tempo. Espécies em anéis são grandes exemplos e muito bem estudados por biólogos e outros cientistas. Recomendo mais uma vez que busca artigos científicos sérios e que os leia, antes de expressar opiniões sem nenhum tipo de embasamento, além do negacionismo:

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=speciation+review

"3° - A Teoria da Evolução está longe de explicar satisfatoriamente todos os fenômenos do mundo material, de modo especial o surgimento da vida e o surgimento do próprio Homem, que é matéria e espírito. Como o espírito poderia provir da matéria bruta?"

RESPOSTA DE FABIANO MENEGÍDIO:

Desde o seu surgimento, a Teoria da Evolução não tenta explicar a Origem da Vida e nem a do Universo, mesmo ambos sendo fatores importantes para que a Evolução exista. Da mesma forma que não precisamos de um conhecimento histórico de como surgiu o primeiro automóvel para dirigi-lo e entender seu funcionamento, não precisamos saber quais foram os fatores relacionados ao surgimento da vida para entendê-la e analisarmos se a mesma evoluiu ou não. Para a Teoria Sintética da Evolução não importa se a vida surgiu pela hipótese heterotrófica, pelos modelos hidrotermais, pelos modelos abstratos, pelos modelos metabólicos, através do “Mundo de RNA”, pela Panspermia, pela Ecopoese, por uma ação divina, através de testes alienígenas, ou qualquer outra concepção; o que importa é que após o seu surgimento, a vida não permaneceu estática na Terra como defendido pelos Fixistas e que essa vida teve uma ancestralidade comum com base em todas as evidências corroboradas. Logo, sua terceira crítica à evolução se baseia em um desconhecimento do escopo teórico da evolução e das teorias que realmente pretendem explicar a origem da vida. A teoria evolutiva não tenta explicar TODOS os fenômenos do mundo material, nunca foi seu escopo e nenhum biólogo evolutivo apresenta esse objetivo. O artigo que recomendei na resposta sobre geração espontânea e abiogênese trata dessa questão e volto a recomendá-lo. Também recomendo que leia livros acadêmicos sobre a teoria evolutiva para compreender seu escopo, como sugestão deixo os livros abaixo:

RIDLEY, Mark. Evolução. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2006.

FUTUYMA, Douglas. Biologia Evolutiva. 3. ed. Funpec. 2009.

FREEMAN, Scott; HERRON, Jon C. Análise evolutiva. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2009.

A conclusão de sua crítica comete mais um erro epistêmico básico e por isso, volto a sugerir que leia a literatura básica recomendada sobre Filosofia da Ciência. Sua crítica é centrada em uma hipótese ad hoc relacionada a existência de uma característica metafisica ao ser-humano denominada “espírito”. Essa característica não possuí qualquer evidência cientifica e não pode passar pela metodologia científica, pois não pode ser falseável e muito menos testada. Com base nisso, ela não é do escopo da ciência, mas sim da teologia que é um ramo da filosofia. Nesse momento entramos novamente na diferenciação dos tipos de conhecimento. A ciência é pautada em um naturalismo metodológico, que é bastante diferente do naturalismo filosófico. O escopo da ciência se centra no que é natural, pode ser falseado e testável.

A teoria da evolução por ser um conhecimento científico não se preocupa com questões metafísicas ou teológicas. Logo, dizer que a evolução não explica o espírito é irrelevante, tendo em vista que essa característica é uma hipótese ad hoc que não pode ser testada e nem falseada, não tendo qualquer tipo de respaldo cientifico.

Sobre a origem do homem, realmente não temos todas as respostas. Mas graças a Genômica funcional, Proteômica e outras áreas da Biologia Molecular, conseguímos obter um grande número de evidências que validam uma ancestralidade comum e que o ser humano é produto de um processo evolutivo.

O link abaixo trata justamente da evolução humana e indica diversos artigos relacionados. Recomendo também a literatura complementar na referência bibliográfica de cada artigo:

http://evolutionacademy.bio.br/.../comparacoes-geneticas.../

"4° - A Teoria da Evolução pretende dar uma explicação para a diversidade de formas de vida presentes sobre a Terra, mas a evolução tem de partir de alguma coisa, de modo que o ato criador de Deus continua sendo necessário para explicar a realidade."

RESPOSTA DE FABIANO MENEGÍDIO:

Como já expliquei em uma resposta anterior, para a Teoria Sintética da Evolução não importa se a vida surgiu pela hipótese heterotrófica, pelos modelos hidrotermais, pelos modelos abstratos, pelos modelos metabólicos, através do “Mundo de RNA”, pela Panspermia, pela Ecopoese, por uma ação divina, através de testes alienígenas, ou qualquer outra concepção; o que importa é que após o seu surgimento, a vida não permaneceu estática na Terra como defendido pelos Fixistas e que essa vida teve uma ancestralidade comum com base em todas as evidências corroboradas.

Sua critica não é direcionada a teoria evolutiva, mas as hipóteses de origem da vida. Como apresentei anteriormente, existem diversos modelos que explicam grande parte da origem da vida sem a necessidade de uma intervenção sobrenatural. Logo, afirmar que um criador "é necessário" torna-se uma falácia de apelo a ignorância e Deus das Lacunas, não um argumento válido. Uma criação sobrenatural é uma hipótese FILOSÓFICA e TEOLÓGICA aceitável, mas não uma hipótese científica. Como dito desde o inicio desse, para se tornar uma teoria científica a hipótese deve ser testável e falseável, sendo que o sobrenatural não cumpre essas duas premissas. Para ser ciência, a hipótese deve passar prelo crivo da metodologia científica que se baseia em um naturalismo metodológico.

Mais uma vez podemos visualizar que suas considerações se baseiam em um total desconhecimento da Filosofia da Ciência e sobre demarcação científica. A leitura de Popper e Kuhn sugeridas na primeira resposta é extremamente válida para desmistificar todos os conceitos incorretos que permeiam suas considerações.

"5° - Nós, os criacionistas, não negamos absolutamente a existência da evolução das espécies. O que nós afirmamos e provamos racionalmente é que existe o ato criador divino, sem o qual nenhuma realidade existiria. Se este ato criador ocorreu só no início do mundo ou se se repetiu no decurso da história é irrelevante. Criar é tirar algo do NADA. Isto nem os mais entusiastas evolucionistas pretendem que o evolucionismo tenha este condão."

RESPOSTA DE FABIANO MENEGÍDIO:

Essa consideração é extremamente interessante, pois demonstra uma total incoerência com sua segunda crítica, aonde afirma que nunca foi visto até o momento o processo de especiação ocorrendo.

Ela já foi respondida anteriormente. Mais uma vez você confunde o escopo de diversas teorias científicas. Realmente a Teoria da Evolução não diz que tudo surgiu do nada, nem mesmo a Biopoese que trata da origem da vida faz essa afirmação. Nem a Teoria do Big Bang faz essa afirmação.

A biopoese propõe o surgimento da vida desde moléculas simples até formas mais complexas, onde essas moléculas precursoras estariam entre a “vida” e “não vida” de forma muito similar aos príons e vírus hoje. Dentro dessa visão de origem existem diversas hipóteses de como foi o surgimento da vida, sendo que todas são órfãs e não fazem parte da Síntese Evolutiva. Uma dessas teorias seria a heterotrófica criada por Oparin que defende que compostos orgânicos teriam sofrido reações em um ambiente aquoso que os levava a níveis crescentes de complexidade molecular, eventualmente formando agregados coloides, ou coacervados. Dentro dessa definição de abiogênese também temos a hipótese do “Mundo de RNA” proposta por Walter Gilbert, em que o mundo atual com vida baseada principalmente no DNA e proteínas foi precedido por um mundo em que a vida era baseada em RNA. Essas duas teorias não são as únicas hipóteses que tentam explicar o surgimento da vida dentro desse contexto de abiogênese existindo muitas outras, como a Panspermia (surgimento da vida fora da Terra) e a Ecopoese. Além disso, essas teorias podem ser complementares e não trabalharem de forma isolada, pois poderíamos ter um surgimento da vida por processo de Panspermia baseada em formas de RNA e sua evolução para a vida composta de DNA.

Mesmo o Big Bang diz que a energia do universo sempre existiu, o que é bem diferente. Logo, sua visão mais uma vez é um desconhecimento das teorias que tenta criticar. É um simplismo epistêmico. Todos esses temas são tratados no artigo que sugeri sobre a geração espontânea.

Por último, suas considerações apresentam na entrelinha uma tentativa falha de interligar a teoria evolutiva com uma visão ateísta. Cosmovisões são de cunho pessoal e podem ser reforçadas por evidências científicas, por exemplo, mas teorias científicas e a ciência é completamente agnóstica em relação a divindades e o sobrenatural. Se não pode ser testado e falseado, não faz parte do escopo da ciência. Outro ponto que vale ser citado é que diversos cientistas importantes na teoria evolutiva são teístas, mas não criacionistas. Exemplos de evolucionistas teístas são: Alfred Wallace, Asa Gray, Pierre Teilhard de Chardin, Ronald Fisher, Theodosius Dobzhansky, entre muitos outros. Hoje também temos grandes nomes, como por exemplo, o Francis Collins, diretor do projeto Genoma.

A grande diferença dos evolucionistas teístas para os criacionistas é que eles sabem que o processo evolutivo não necessitam de uma divindade coordenando seus detalhes. Segue abaixo um resumo dessa cosmovisão apresentada por Collins em seu livro “Alinguagem de Deus”:

1. O universo surgiu, há aproximadamente 14 bilhões de anos (pela imposição de leis por Deus);

2. Apesar das improbabilidades incomensuráveis, as propriedades do universo parecem ter sido ajustadas para a criação da vida;

3. Embora o mecanismo exato da origem da vida na Terra permaneça desconhecida, uma vez que a vida surgiu, o processo de evolução e de seleção natural permitiu o desenvolvimento da diversidade biológica e da complexidade durante espaços de tempo muito vastos;

4. Tão logo a evolução seguiu seu rumo, não foi necessária nenhuma intervenção sobrenatural;

5. Os humanos fazem parte desse processo, partilhando um ancestral comum com os grandes símios;

Mais uma vez, as sugestões de leitura se tornam essenciais para suas considerações.

"6° - Nós, os criacionistas,não achamos que as descrições da Criação Divina contidas no livro do Gênesis pretendam ser um relato físico/químico/geológico/biológico/paleontólogico da formação do mundo. A Bíblia é um livro religioso, a sua mensagem principal é religiosa, isto é, trata das ligações entre o Homem e o seu Criador Divino. Como disse o católico Galileu Galilei a propósito da movimentação dos astros, a Bíblia não nos diz como anda o céu, mas como se vai para o Céu. A sua finalidade é muito mais importante. Aliás, nem Charles Darwin, em absoluto, achava que a sua tese evolucionista dispensaria a existência de Deus para explicar a realidade. A própria descrição do Genesis mostra a formação do mundo ao longo do tempo, "evoluindo" dos serem inferiores para os superiores, até chegar ao Homem. Este, apesar da sua proeminência sobre tudo o que havia sido criado até então, é tirado de uma matéria pré-existente, o "barro" sobre o qual Deus "sopra" o espírito.

Sendo o que me parece necessário ponderar, despeço-me cordialmente,

De "Um ruralino criacionista"

Zootecnista formado na UFRRJ

RESPOSTA DE FABIANO MENEGÍDIO:

Em sua primeira frase, você tenta demonstrar uma hegemonia inexistente no meio criacionista. Uma de nossas palestras tratou justamente dessa falta de hegemonia entre os criacionistas:

https://www.youtube.com/watch?v=jTl15RUVCHQ

Apenas para falar de dois tipos específicos de criacionistas, devemos lembrar que Criacionistas da Terra Jovem, diferente do que você apresenta, acreditam na literalidade da escritura bíblica e que ela apresenta um relato científico inspirado por sua divindade desde a sua primeira página até o fim. No Brasil, os adventistas são exemplos dessa corrente. Ken Ham e seu Museu da Criação é um outro exemplo extremamente conhecido.

Logo, seu relato sobre sua interpretação da bíblia é de cunho pessoal e não condiz com a categoria denominada “criacionistas”. Sua frase não condiz com o posicionamento de todos os criacionistas. Poderíamos classificá-lo dentro da corrente do Criacionismo da Terra Antiga, que não nega a idade da Terra, mas mesmo dentro dessa corrente temos diversas subcategorias. Alguns acreditam na literalidade bíblica mudando apenas a interpretação dos 7 dias que corresponderiam a anos ou milhares/milhões/bilhões de anos, outros tratam a bíblia de forma alegórica e diversas outras interpretações são possíveis e conhecidas.

Toda sua apresentação tem um valor teológico, mas nenhum valor científico, como você perceberá quando ler a literatura de Filosofia da Ciência sugerida. Quando falamos de evolução biológica, estamos falando de uma teoria testada e validade durante mais de 150 anos. A interpretação teológica sobre seus resultados ou mesmo filosóficas não interessam para a ciência e não mudarão os fatos estudados e validados. Recomendo que leia os livros sugeridos no decorrer das respostas, os artigos e literatura suplementar. Espero que entenda a diferença entre um conhecimento científico e teológico, além de compreender que suas criticas se baseiam em uma falsa dicotomia. Uma teoria científica não existe para validar ou invalidar uma visão teológica, mas pode ser usada por outras áreas do conhecimento como evidências favoráveis em seus discursos.

Sabemos que o conteúdo é extenso e que os questionamentos demonstram total falta de conhecimento científico e que de certa forma, seria desnecessário perdermos tempo respondendo tais questionamentos, mas acreditamos que a melhor forma de disseminar o conhecimento é assim, argumentando.

Eu, J.C, agradeço a paciência e disponibilidade do amigo Fabiano.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

CONHECER DE OUVIR FALAR


O jornal O GLOBO publicou no dia primeiro de abril – e eu gostaria que fosse mentira! – uma pesquisa da Fecomércio-RJ que revela que, em 2014, 70% dos brasileiros não leram um livro sequer em 2014. E, penso eu, quantos dos que leram não prestigiaram o lixo da superstição e das pseudociências?

O problema é muito complexo. Além do preço alto dos livros contra os baixos salários do povo, a maioria das cidades brasileiras não têm bibliotecas públicas, e as que existem fecham nos fins de semana – por isso aplaudo a existência da Biblioteca Parque Estadual, que não fecha nos fins de semana e fica aberta durante a semana até as 20 horas. Não há estímulo para a leitura. E o brasileiro acha que só se deve ler para passar numa prova, razão pela qual a maioria, ao deixar a escola, passa o resto da vida sem abrir um livro. Poucos pensam que a leitura possa preparar para a vida, para a tomada de decisões, para o melhor julgamento de questões.

A saúde da democracia depende do incentivo à leitura. E a saúde da Educação depende de uma boa remuneração dos professores para que eles possam ter dinheiro para gastar com livros. É preciso que os professores leiam para saberem o que indicar aos alunos. É preciso que os alunos conheçam autores e obras ouvindo falar deles, para que, querendo ler ou precisando de uma informação, saibam onde procurar.
Sou professor de Língua Portuguesa e aproveito cada ocasião em que falo de Gramática para falar de grandes autores e de textos importantes. Já escrevi no quadro artigos da Constituição ao ensinar acentuação gráfica, para que os alunos compreendessem o que é um Estado democrático. A mesma coisa fiz com parágrafos de “A Origem das Espécies”, de Darwin, para que eles entendam como esse grande cientista argumentava, que a Evolução não é um delírio de um ateu revoltado, como dizem a eles desonestos fundamentalistas.

Ao ensinar adjuntos adverbiais, escrevo frases do tipo: “Em 1953, o escritor Josué Montello casou-se com Yvonne na embaixada do México”. Explico:

-- “Em 1953” é adjunto adverbial de tempo, porque informa quando o fato aconteceu; “na embaixada do México” é adjunto adverbial de lugar”, porque diz onde o fato aconteceu. Mas por que eles se casaram na embaixada de um país estrangeiro, e não num cartório? Porque, naquela época, não existia divórcio no Brasil. Quando um casal se separava, se desquitava, e o desquite não dava direito a um novo casamento. Quando foi proclamada a República e feita a separação entre Igreja e Estado, o deputado Pardal Mallet defendeu que se criasse a lei do divórcio, mas a Igreja impediu isso dizendo que quem defendia o divórcio queria destruir a família. Só em 1977 Nelson Carneiro conseguiu aprovar a lei do divórcio, e as famílias não se acabaram por causa disso, como diziam as igrejas. – É preciso dizer isso não apenas para que eles ouçam falar do grande escritor Josué Montello, um dos criadores da Universidade Federal do Maranhão, mas que entendam também que a vida nem sempre foi como é hoje, que as leis e os costumes mudam, que nada está parado.

Aplaudo de pé o cineasta José Padilha que, no filme “Tropa de Elite” colocou uma cena em que, numa sala de aula de uma universidade, discutia-se a obra “Vigiar e Punir”, do filósofo Foucault. Por causa dessa cena, alguém que viu o filme leu Foucault. Alguém que não saberia da existência desse livro se não fosse o filme. Da mesma forma, quando traduzi o romance "Valperga", de Mary Shelley, semeei fartamente notas de pé de página com referências a importantes obras que merecem ser lidas.

É urgente que os professores assumam o hábito de comentarem livros em sala de aula.

É urgente que assumamos o hábito de comentar livros nas redes sociais.

Postado por

Trailer do Hangout d'ARCA