domingo, 24 de maio de 2015

POR QUE JÔ SOARES ENTREVISTA DILMA E NÃO ENTREVISTA D. PEDRO II?


O contato com alunos fundamentalistas que se recusam a entender a evolução, o Big Bang etc. me fez procurar leituras de divulgação científica e vídeos como os produzidos por Pirula e David Ayrolla. Quando li que grandes corpos, como os planetas, criam uma curva no espaço-tempo, fiquei bolado como esses dois conceitos, tempo e espaço, aparentemente díspares para nossa percepção, podem formar um todo.

Por que temos liberdade para viajar no espaço e não no tempo?

Woody Allen, que mora em Nova York, pode ir mais para o Norte, e, chegando no Canadá, fazer um filme com Henry Cavill. Ou ir mais para o Sul e, chegando ao Brasil, fazer um filme com Lima Duarte. Mas por que ele não pode voltar no tempo e fazer um filme com Charles Chaplin ou avançar no tempo e contracenar com os bisnetos de Rodrigo Santoro (eu suponho que ele terá bisnetos)? Por que Jô Soares entrevista Dilma Rousseff e não entrevista D. Pedro II? Por que Elisabeth II condecora Helen Mirren mas não condecora Shakespeare? Por que um velho lembra acontecimentos de sua infância mas não prevê o futuro de seus descendentes? 

Se há uma unidade entre tempo e espaço, não é verdade que o passado deixou de existir e o futuro ainda não existe. Se há essa unidade, Machado de Assis não será apenas uma coleção de ossos guardada no mausoléu da Academia Brasileira de Letras, mas, em algum ponto do universo, ele está escrevendo as mesmas cartas que escreveu para o amigo Joaquim Nabuco. E todos os fatos se repetem infinitas vezes como na aterradora suposição nietzscheana do eterno retorno. Se existe essa unidade, deveria ser possível viajar não apenas no espaço (de Petrópolis a Tóquio), mas também no tempo (do século XXVII ao século VIII a. C. e de lá para o século XXXIX). 

Responderão os céticos: Se essa viagem no tempo fosse possível, alguém teria voltado no tempo para impedir que o Titanic naufragasse. Mas será que, no futuro, estrategistas decidiram que não se deve impedir que o Titanic naufrague para que normas mais rígidas de segurança fossem adotadas nas viagens marítimas, o que aconteceu após a comoção causada pelo naufrágio mais famoso da História?

Interrogações que desaguam em ficção científica e realismo mágico.


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segunda-feira, 11 de maio de 2015

“Apenas uma teoria!”: Desmistificando termos científicos


"- Se a evolução já foi provada, por que ela ainda é uma teoria e não uma lei científica?"

Termos científicos não são muito utilizados no dia-a-dia de quem não lida com ciências, e é comum ler e ouvir afirmações ou perguntas tão conceitualmente erradas quanto esta. Esta confusão atrapalha a divulgação e o entendimento de ciências, além de promover a ignorância e o desprezo com relação à atividade científica.

Palavras como "teoria", "lei", "postulado", "fato", "evidência" e "hipótese" assumem significados diferentes daqueles utilizados cotidianamente, quando empregados na área da pesquisa científica, motivando acalorados e infrutíferos debates que jamais existiriam se não houvesse este problema de interpretação.

O objetivo deste vídeo aqui é o de tentar esclarecer alguns destes termos, de forma clara e bem simples.

Afinal, a evolução é realmente apenas uma teoria?

Com vocês, mais um vídeo do canal PAPO DE PRIMATA!



sábado, 9 de maio de 2015

A MELHOR E A PIOR FRASE DA BÍBLIA


Nunca vimos uma crucificação. Não sabemos como eram as crucificações. Tanto que, a cada filme ou série que assistimos, os roteiristas e diretores crucificam os personagens de uma forma diferente. Confiram, por exemplo, o clássico “Ben-Hur”, o filme “Spartacus” de 2004 (não me refiro ao clássico com Kirk Douglas que mostra pessoas crucificadas mas não sugere como se fazia, o diretor lavou as mãos) e o seriado “Spartacus”, em cujo episódio final o personagem Gannicus, interpretado pelo belo Dustin Clare, morre crucificado após comandar uma tropa de rebeldes que retarda o avanço do exército romano para que velhos, mulheres, doentes e crianças consigam fugir pelas montanhas guiados pelo casal de guerreiros gays Agron e Nasir.
As crucificações eram tão comuns nos tempos da Bíblia que os evangelistas não se deram ao trabalho de explicar como elas eram feitas: todo mundo sabia como era, todo mundo já tinha visto e ninguém jamais imaginou que um dia isso deixaria de acontecer. Se eles tivessem o dom de prever o futuro, teriam facilitado as coisas para os produtores de Hollywood e explicado direitinho como se fazia.
Quem gasta mais papel narrando o que teria acontecido no Calvário é João, o apóstolo amado. Telegráfico como os demais na parte técnica (“Lá, eles o crucificaram com outros dois” – João 19: 18, tradução da CNBB), demora-se a contar como agiam o povo, os soldados e os condenados.
Duas coisas sempre me chamaram a atenção. Jesus diz: “Tenho sede!” Um teólogo ou um filósofo (mesmo ateu) poderia escrever um livro inteiro sobre essa frase. Todos os crucificados sentiam sede, pois perdiam sangue e suor naquela tortura. Mas apenas Jesus pensa em pedir água àqueles soldados que o despiram, espancaram e pregaram na cruz, somente ele acredita que pode restar alguma bondade naqueles soldados e que eles lhe poupariam ao menos o tormento da sede. Essa frase antecipa em quase dois mil anos a frase de Anne Frank, criança símbolo do Holocausto: “Apesar de tudo, ainda creio na bondade dos corações humanos”. “Tenho sede” é a melhor frase da Bíblia.
João se diz testemunha ocular dos acontecimentos. Lucas declara ter escrito o que ouviu de outras pessoas. Ele diz que um dos condenados insultava Jesus e o desafiava a libertá-los da cruz. Causa-me admiração que um homem, sofrendo a dor de ter pregos perfurando sua carne e seus ossos e a vergonha de ser exposto nu diante de uma multidão ainda encontre disposição para zombar de outro. O que mais pensar que o principal motivo de o imperador Constantino, após sua conversão, proibir as crucificações não teria sido o alegado desejo de negar a criminosos a “honra” de morrerem como o Salvador, mas sim o costumeiro mal humor dos condenados que contrariavam essa página. Ou será que aquela mistura de vinho com mirra, que Marcos 15;23 e Mateus 27: 34 dizem ter sido oferecida aos condenados era um entorpecente tão eficaz assim? Nunca saberemos, pois as leis não nos permitem crucificar um condenado para testar a eficácia de tal droga no alívio das dores. A bioética impede que o método científico possa refutar ou aprovar o relato bíblico.
E é no relato de Lucas que encontra-se a pior frase da Bíblia. O outro condenado repreende o debochado e lhe diz: “Para nós, é justo sofrermos, pois estamos recebendo o que merecemos” (Lucas 23: 41).
Várias pesquisas científicas foram feitas para investigar como os romanos crucificavam. Em que partes dos braços eles metiam os pregos? Experiências foram feitas com cadáveres para ver como um corpo poderia ser pregado na cruz sem que se soltasse. (Pregos metidos nas palmas das mãos, como na arte religiosa, não seriam eficazes: o peso do corpo faria com que as mãos se rasgassem e os corpos caíssem, e talvez caíssem com as vítimas ainda vivas. Então o mais eficiente seria metê-los nos pulsos.)
Há um documentário do History Channel sobre isso, ao qual assisti no Youtube. Médicos valeram-se de voluntários que se deixaram amarrar a cruzes para pesquisarem os efeitos da crucificação sobre o coração.
Mas por que não foram esses médicos a um lugar onde há pena de morte e não pediram que as autoridades lhes entregassem alguns condenados para que mais fielmente testassem suas hipóteses? Por uma única razão: PORQUE AS SOCIEDADES EVOLUÍRAM E AS TORTURAS NÃO SÃO MAIS ACEITÁVEIS EM NENHUMA LEGISLAÇÃO QUE SE QUEIRA CIVILIZADA. Não importa o que um criminoso tenha feito. Ele não pode ser crucificado.
Sim, eu acho que realmente houve um rabino em Jerusalém que incomodou as autoridades religiosas e políticas com seus ensinamentos e por isso foi crucificado. Há chances de que esse diálogo realmente tenha ocorrido.
E, na mentalidade da época, os criminosos não tinham dignidade. Podia-se fazer tudo com eles. Não apenas crucificações, mas apedrejamentos, castrações, fogueiras, toda sorte de tormento.
Aqui no Brasil, país em que não há investimento em Educação, em que as empresas de comunicação não cumprem os compromissos éticos que a Constituição Federal impõe nos artigos 220 e 221 da Constituição Federal às concessionárias de rádio e TV, a população é catequizada por um jornalismo desonesto que repete diariamente que a Declaração dos Direitos Humanos apenas beneficia bandidos. Não! A Declaração dos Direitos Humanos é um conjunto de exigências feitas aos países membros da ONU para que TODOS OS SERES HUMANOS tenham uma vida digna: o direito à educação, à informação, à saúde, à crença ou descrença, à participação política, à integridade física etc. É graças à Declaração dos Direitos Humanos, por exemplo, que ninguém pode forçar você a casar com quem você não queira, embora os líderes religiosos que primam pela desonestidade amedrontem as pessoas com o fantasma de uma ditadura gay.
Essa frase do Evangelho de Lucas, repetida há quase dois mil anos, que repete o senso comum que nega a dignidade humana a uma pessoa com base em algum ato errado que ela tenha cometido, esse ensinamento torpe torna possível que a maioria da população, mal informada e manipulada, ache correto que ainda hoje alguém seja torturado.
Lembro aqui o caso da travesti Verônica. Ela realmente agrediu a senhora de 70 anos? Eu não sou advogado dela. Não posso afirmar que ela seja inocente. Mas é um princípio que herdamos do Direito Romano que todos são inocentes até prova em contrário. (Sim, Pilatos não condenou Jesus antes de perguntar se ele se assumia rei dos judeus, o que era um crime contra Roma. Se ele tivesse dito que não, a obrigação de Pilatos seria chamar a tropa de choque para dispersar a plebe que exigia a crucificação de Jesus e escoltá-lo até um lugar seguro.) Que Verônica seja devidamente processada e julgada. E, se condenada, cumpra a pena estabelecida pela lei. Lei que, conforme a Declaração dos Direitos Humanos, proíbe a tortura. Seja qual for o caso.

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76° Hangout d'ARCA - Evolução experimental e as falácias negacionistas - com Fabiano Menegídio


Então galera, para quem não conseguiu participar e nem assistir ao vivo, segue o vídeo do nosso septuagésimo sexto HANGOUT d'ARCA realizado no último sábado dia 02/05/2015, onde abordamos, juntamente com o mestrando em Biotecnologia pela Universidade de Mogi das Cruzes, Fabiano Menegidio, o tema "Evolução experimental e as falácias negacionistas". Ele também atua nas áreas de Genômica Funcional e Estrutural com Xylella fastidiosa, Paracoccidioides brasiliensis e Vitis vinifera, com ênfase em Bioinformática. Especialização em Metodologia de ensino de ciências da natureza e Filosofia. Graduado em Ciências Biológicas (Licenciatura Plena e Bacharelado) e Formação Específica em Gestão Ambiental. Atuação na divulgação acadêmica e no jornalismo cientifico, principalmente sobre a Teoria da Evolução, no blog Evolution Academy. Esse hangout está imperdível e cabe ressaltar que o pessoal participou ativamente pelo youtube com perguntas diversas. Você não pode perder. Não esqueça de se inscrever em nosso canal, curtir e compartilhar o vídeo afim de disseminar o conhecimento de qualidade e gratuito. Não perca.
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Se inscreva em nosso canal no youtube: Canal d'ARCA para ficar por dentro dos nossos vídeos, visite também a nossa fanpage: https://www.facebook.com/arcateus ou nos siga no twitter: https://twitter.com/canaldarca e ainda temos um grupo de debates no facebook: https://www.facebook.com/groups/arcateus/

75° Hangout d'ARCA - A Homossexualidade e a bíblia - com Edson Custódio


Então galera, para quem não conseguiu participar e nem assistir ao vivo, segue o vídeo do nosso septuagésimo quinto HANGOUT d'ARCA realizado no sábado dia 25/04/2015, onde abordamos, juntamente com o vlogger Edson Custódio, do canal "Ateu ver", o tema "Homossexualidade e a bíblia". Ele também é professor, ator e coreógrafo. Esse hangout está imperdível e cabe ressaltar que o pessoal participou ativamente pelo youtube com perguntas diversas. Você não pode perder. Não esqueça de se inscrever em nosso canal, curtir e compartilhar o vídeo afim de disseminar o conhecimento de qualidade e gratuito. Não perca.


Se inscreva em nosso canal no youtube: Canal d'ARCA para ficar por dentro dos nossos vídeos, visite também a nossa fanpage: https://www.facebook.com/arcateus ou nos siga no twitter: https://twitter.com/canaldarca e ainda temos um grupo de debates no facebook: https://www.facebook.com/groups/arcateus/

EVOLUÇÃO PARA PRINCIPIANTES


Aula de Literatura. O Estado manda que eu fale aos adolescentes sobre autores realistas e que eu diga que Machado de Assis rezava pela cartilha do Realismo, nada mais falso -- Machado não cria em verdades absolutas e mostra homens perdidos buscando um sentido para as coisas. Mas disso eu falo depois.
Preciso falar a eles sobre o panorama histórico e filosófico da época em que esses autores viveram. Quem fazia a cabeça desses caras? Que livros estavam bombando? Dei umas pinceladas sobre Adam Smith, Darwin, Marx e Nietzsche.
Mas do "tio" Darwin eu falei assim: "Ele deu a volta ao mundo no navio Beagle, uma viagem que durou quatro anos, e esteve aqui em Itaboraí. Por isso que tem aquela placa em homenagem a ele na Praça Floriano Peixoto, em frente à igreja de São João Batista."
"O livro mais importante dele é "A Origem das Espécies'. Depois de andar pelo mundo todo estudando plantas e bichos, ele escreveu esse livro demonstrando as ideias que teve a partir daquilo que viu: explicando como as espécies mudam com o passar do tempo.
"Antes de vir para o Brasil, ele passou pela África e viu os avestruzes. Chegando ao Rio Grande do Sul, ele viu as emas e achou muito parecidas com os avestruzes. Por que em dois continentes havia aves tão parecidas? Darwin pediu para os gaúchos um cadáver de ema para estudar a anatomia do bicho e os gaúchos disseram que era justamente uma ema que estavam comendo. E Darwin saiu catando os ossos do churrasco." (Risadas.)
"Depois ele foi para a Argentina. Lá, testemunhou um terremoto e viu que uma parte do terreno ficou mais elevada do que era antes. Então ele aceitou a ideia de Charles Lyell de que catástrofes naturais poderiam mudar o relevo do planeta no decorrer dos séculos.
Se a gente olhar o mapa, a gente vê que o Brasil e a África se encaixam como peças de um quebra-cabeças. Esses dois territórios se separaram com o passar do tempo e a população de certas aves pré-históricas ficaram divididas entre os dois continentes. E assim elas também mudaram com o decorrer do tempo, evoluindo umas para avestruzes e outras para emas."
E nenhum fundamentalista se escandalizou com isso, com essas noções básicas de evolução. Esse pessoal só se magoa quando a gente diz que a espécie humana evoluiu de uma espécie extinta de símios, que nós e os chimpanzés temos um ancestral em comum. É mesmo uma "ferida narcísica", como diz Frei Betto.

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sábado, 2 de maio de 2015

A CERIMÔNIA DO ADEUS


"Cerimônia do Adeus" é o nome do livro em que Simone de Beauvoir conta os últimos dez anos de vida de Jean-Paul Sartre, com quem vivera uma relação amorosa que durou décadas.
A melhor página do livro é a primeira, quando Simone dirige-se a Sartre: "Este é o primeiro livro que escrevo que você não lê por cima do meu ombro." O prefácio começa com uma carta ao amado Sartre, e, logo depois, ela, ateia, põe as cartas na mesa: dirigir-se a Sartre era apenas um floreio literário, pois Sartre não podia mais ouvi-la. Mesmo que os ossos dela se juntassem às cinzas dele, ambos jamais estariam juntos de novo.

Camus disse certa vez que a única coisa no universo que faz sentido é o homem, pois é o único ser que exige um sentido para as coisas. Conhecemos a realidade mediante nossos sentidos e mediante símbolos (a linguagem, por exemplo: o primeiro passo para entender algo é nomeá-lo).

Esta semana perdi um amigo e isso me deixou emocionalmente transtornado. Durante a internação dele, que durou mais de um mês, repetidas vezes pedi a algumas pessoas que fôssemos visitá-lo. Que me chamassem quando fossem visitá-lo no hospital, pois não conheço bem o Rio de Janeiro. Ninguém me chamou e não consegui visitá-lo. Como também não consegui ir ao velório e ao sepultamento.

A minha ficha ainda não caiu. Ainda não compreendi plenamente a sua perda. Diante disso, pedi a um amigo que é padre e sabe de meu ateísmo para celebrar uma missa de sétimo dia em sua memória. Não que eu me preocupe com ele, pois não creio em vida após a morte. Mas para que, durante a cerimônia, eu possa chorar ao lado de nossos amigos em comum e despedir-me dele simbolicamente.

E aí lembro-me de algo que li em algum lugar. Que, quando cientistas encontram restos fossilizados de homens das cavernas, buscam nas proximidades da ossada, restos de algum ritual, para certificar-se da sua condição de humanos, da evolução de cérebros que já buscavam sentidos para o mundo.

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quinta-feira, 30 de abril de 2015

JESUS CRISTO, CAMPEÃO DOS ALCOÓLICOS ANÔNIMOS


Os Alcoólicos Anônimos dizem para seus integrantes evitarem a primeira dose e contam cada dia que ficam sem beber. Eles dizem coisas do tipo: Estou sem beber há 4 anos, 3 meses e 20 dias.
Pensando assim, para quem crê piamente nos Evangelhos, Jesus é campeão dos campeões, pois está há quase dois mil anos sem chegar perto do vinho.
Evangelho de Hoje:
Mateus 26: 29:
"E vos afirmo que, de agora em diante, não mais tomarei deste fruto da videira até aquele dia em que beberei o novo vinho, convosco, no Reino de meu Pai”.

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terça-feira, 28 de abril de 2015

CIÊNCIA SÓ QUANDO INTERESSA


Acabo de ler uma reportagem, publicada por O GLOBO, neste 21 de abril de 2015, sobre a transexual Maitê Schneider. Fico pasmo com os comentários dos religiosos na versão digital do jornal.

Um diz que o dinheiro público não deveria ser gasto com essas cirurgias efetuadas pelo SUS em detrimento de outros gastos com Saúde. Bem, se faltam remédios ou material hospitalar em Pindamonhangaba ou em Juazeiro do Norte, a culpa não cabe aos transexuais. Mas quem argumenta assim não abre a boca para dizer que se gasta mais tratando doenças do que prevenindo doenças -- quando sabemos que cada real investido em saneamento básico implica na economia de quatro reais em tratamentos médicos. E eu lembro sempre a máxima de Drauzio Varella, de que a medicina existe para aliviar o sofrimento. E é isso que as cirurgias de redesignação sexual fazem: diminuem o sofrimento de quem não se reconhece no corpo em que nasceu.

Outro diz que ela nunca será mulher porque tem o cromossomo Y, o invés dos cromossomos XX. Eu pergunto a esses religiosos, que sustentam a veracidade da fábula da cobre falante: vocês sabem definir, explicar, o que é um cromossomo? Já viram um cromossomo? Cromossomo, para eles, é apenas uma palavra usada para negar aos transexuais o direito de decidirem sobre o próprio corpo.

Essa desonestidade intelectual me enoja.

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segunda-feira, 27 de abril de 2015

TRANSEXUALIDADE


A cartunista Laerte Coutinho, que pensou em denominar-se Sônia, mas preferiu manter o nome que sempre foi sua marca, desde quando se identificava como homem, disse numa entrevista ao programa "Talk-Show do Rafucko", disponível no Youtube, que "preconceito não é a opinião antecipada; preconceito é a opinião que não muda". Perfeito! Quem menospreza negros, mulheres, judeus, homossexuais etc. manterá suas opiniões grotescas mesmo que vejam representantes das categorias que despreza vencerem o Nobel em várias categorias.

Costumo dizer que tudo evolui, não só a natureza como a cultura. Daí que tenhamos caminhado do Latim para o Português de hoje, que não será o mesmo dentro em pouco. Também as religiões evoluem. Exemplos: A missa católica deixou de ser em Latim para ser em línguas vernáculas, embora a Igreja Católica não admita que mulheres cheguem ao sacerdócio. A Igreja Anglicana já tem mulheres como sacerdotisas e até uma bispa. Várias igrejas reconhecem o amor entre pessoas do mesmo sexo.
Um amigo que é pastor tem a seguinte postura: casamento não é sacramento e não deve se dar dentro da Igreja. E quanto à homossexualidade, quando alguém toca no assunto, ele recita de cor um rosário de proibições bíblicas que ninguém leva a sério: não consumir laticínios e carne vermelha na mesma refeição; não comer crustáceos; não usar roupas feitas com dois tipos de fios; não trabalhar no sábado; não raspar a barba etc. Então por que levar a sério justamente a proibição de amar alguém do mesmo sexo?
Li recentemente um texto sobre uma judia trans. Ela sentia-se mulher e fez a cirurgia de redesignação sexual, retirando os órgãos masculinos. Segundo ela, a doutrina judaica diz que todos nós nascemos com um defeito e por isso mesmo nascemos: para aperfeiçoar-nos. Ao adaptar-se à sua identidade feminina, ela estaria se aprimorando.

Fico imaginando como as diversas religiões se comportarão diante dos avanços nos direitos civis dos transexuais. Que discursos adotarão as que não forem fundamentalistas para integrá-los a seus rebanhos? Pois admitir que alguém que tem órgãos masculinos sinta-se mulher, ou que alguém com órgãos femininos sinta-se homem é admitir que Deus errou ao criar aquela pessoa com aquele corpo, ou estou errado?

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Trailer do Hangout d'ARCA